10/2009 - Revista Entre-Vias

Motoristas conscientes, mas alto número de acidentes


Especialista mostra dados que comprovam que caminhoneiros são muito mais conscientes do que os condutores de veículos de passeio. Con­tudo, por ano, ocorrem 85.000 acidentes com caminhões, que acarretam em torno de R$ 9 bilhões em prejuízos.

Um modelo estruturado de gestão do transporte, abrangendo o dese­nho de processos, com o emprego da tecnologia adequada por pessoas capacitadas, para o enfrentamento e domínio de qualquer natureza de ris­co existente na logística, é uma mis­são desafiadora. No caso especifico dos acidentes, o fato de poder ajudar a poupar vidas com os programas de gestão de riscos incentiva e traz sa­tisfação pessoal e senso de realização para o engenheiro industrial mecâni­co Darcio Centoducato.
Especialista em Logística de Trans­portes pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), pela Georgia Tech e associado ao Risk and Insurance Management Society (RIMS), desde 2000 é diretor de Gerenciamento de Riscos da GPS - Logística e Gerenciamento de Riscos, detentora da marca Pamcary®. Esse conceito prevê avaliar riscos, projetar modelos de gestão destes perigos e acompanhar os seus resultados.
A experiência profissional de 25 anos permite uma análise acurada de acidentes com veículos pesados, desmistificando projeções do senso comum. Uma delas se refere a ca­minhoneiros que dirigem sob efeito do álcool. Sabe qual o percentual? Acompanhe a entrevista e conheça os dados completos do estudo.

Entre-Vias: Quais foram as princi­pais conclusões do estudo sobre os acidentes de caminhão no Bra­sil, produzido pela Pamcary®?
Dárcio Centoducato:
O maior mé­rito do estudo foi trazer à tona a es­timativa do tamanho dos custos dos acidentes envolvendo veículos de carga à sociedade. Até então, apenas o roubo ganhava atenção exclusiva, com 11.000 eventos por ano que ge­ravam R$ 1 bilhão em perdas. Ocor­rem 85.000 acidentes, anuais, com veículos de carga (apenas nas rodo­vias federais e estaduais), que acar­retam em torno de R$ 9 bilhões em prejuízos e que ceifam mais de 8.000 vidas. Isso, sem dúvida, reorientou a priorização de tratamento de riscos nas empresas.

EV: Como foi a metodologia da pesquisa?
DC:
A fonte primária dos dados foi a base de atendimentos de acidentes da Pamcary®, no qual anualmente aten­demos cerca de 6.000 eventos de aci­dentes. Em cada um desses eventos, coletamos mais de 80 dados sobre o acidente, o que torna essa base uma riquíssima fonte de informações. Na pesquisa, os dados foram compilados por meio de um gráfico bidimensio­nal denominado “Matriz de Riscos”, combinando naturezas, causas e fato­res contribuintes dos acidentes que combinam maior frequência e conse­quência à vida e à carga. Por meio de técnicas de indução estatística, extra­polamos esses dados (amostra) para o cenário nacional (universo).

EV: A pesquisa revelou o percen­tual de caminhoneiros que diri­gem sob efeito do álcool? E de drogas, como rebites?
DC:
As informações obtidas por nossos profissionais, que atendem milhares de acidentes com veículos de carga, revelam um fato importan­te: motoristas profissionais de cami­nhão são muito mais conscientes do que os de passeio. Apenas 1% dos acidentes atendidos por nossos ins­petores revelaram indícios de em­briaguez. Nos casos de colisões com veículos de passeio, é muito mais provável que o motorista alcoolizado seja o do veículo leve.

EV: Quais são as principais causas de acidentes?
DC:
O estudo identificou que os principais eventos geradores dos aci­dentes mais frequentes e de maior severidade são o tombamento e a capotagem, bem como os fatores precursores destas ocorrências, a sa­ber: a velocidade incompatível com a curva associada à fadiga do con­dutor. Por fim, propõe-se diretrizes estratégicas para a prevenção desses eventos, com base em casos práticos de sucesso junto aos seus clientes (ver quadro).

EV: Na sua experiência, quais são as formas mais efetivas de pre­venção de acidentes com cami­nhões?
DC:
As empresas, em especial os contratantes de serviços de trans­portes, devem criar condições para o comportamento seguro dos pro­fissionais que carregam suas cargas. Sintetizando, devem tomar medidas educacionais, de padronização e de fiscalização de suas viagens, além da remuneração adequada que incenti­ve a direção segura. Criar um siste­ma de pontuação baseado no cumpri­mento do plano de viagem e que sirva de parâmetro para o pagamento de prêmios, certamente, é a forma mais eficaz de se obter bons resultados.

EV: Como poder público, popula­ção e os próprios motoristas po­dem gerenciar esse risco?
DC:
Quanto aos limites de tempo de direção, assunto amplamente discuti­do, é importante que a lei valha para todos: empresas, agregados e moto­ristas autônomos, a fim de se evitar concorrência desleal. No entanto, uma ação governamental para criar condi­ções em reduzir a fadiga do motorista é a Normatização do Sistema de Re­muneração do Motorista Autônomo, objetivando a segurança e sua inser­ção social. Isso porque, para receber o valor da carta-frete, o caminhoneiro autônomo fica obrigado a efetuar pa­radas em postos de combustíveis que não são de sua escolha e não obede­cem as questões de segurança, des­canso e bem-estar do motorista.

EV: As paradas desnecessárias provocam aumento de sua jorna­da de trabalho e/ou excessos de velocidade para o cumprimento dos prazos contratuais. O senhor é a favor do controle da jornada de trabalho para motoristas?
DC:
O controle da jornada, por es­tar intimamente relacionado com a fadiga do motorista, é uma medida fundamental. Mas não devemos nos esquecer da qualidade do descanso do profissional. Isso faz com que o transporte tenha que ocorrer de for­ma planejada e monitorada. Assim, cada missão de transporte deve pos­suir um "plano de viagem" ou roto­grama definindo trajetos e pontos de parada para descanso e alimentação.
Evidentemente, não basta apenas se estabelecer um padrão de viagem segura. É necessário o monitora­mento de seu cumprimento atrelado a um sistema de pontuação dos mo­toristas, recompensando-os finan­ceiramente. Sem dúvida, ao passo que a fiscalização tem o seu papel vi­tal, a única forma de auditar o modo de se dirigir um caminhão em 100% do percurso é pelo emprego maciço da tecnologia embarcada. Hoje isto é possível pela aplicação da telemetria à prevenção de acidentes.

EV: Como conciliar o transporte seguro com a pressão do cliente, as péssimas condições das estra­das e com a baixa valorização do frete?
DC:
Nossos estudos mudaram um paradigma: que para se obter segu­rança perde-se produtividade logís­tica. Algumas iniciativas da indústria que aplicam o conceito de “Movi­mento Contínuo Carregado”, ou seja, os ativos empregados no trans­porte devem estar sempre “suando”, ajudaram a chegarmos a esta conclu­são. Para criar essa condição, as in­dústrias têm estudado seus fluxos de transporte visando identificar opor­tunidades de criação dos denomi­nados Circuitos Estáticos, nos quais ocorrem a troca de motoristas e os veículos não param. Dessa forma, não obstante as condições críticas de diversas rodovias, o transportador e consequentemente o motorista não desperdiçam valioso tempo nas ope­rações de carga e descarga. A viabili­zação desse modelo garante melhor rentabilidade da operação. Assim, a pressão por prazos dos clientes acaba arrefecida, pois os mesmos preferem regularidade ao invés de velocidade.

EV: Qual é a conduta indicada para o motorista profissional? A Pamcary® oferece orientação nesse sentido?
DC:
Em resumo, é que o mesmo queira dirigir de forma segura e manter-se saudável. A Pamcary® apoia o Instituto Cuidando do Futuro (ICF), que objetiva o desenvolvimen­to de projetos de responsabilidade socioambiental focadas no setor de Logística e Transporte Rodoviário de Cargas. Um desses projetos é o Motorista Socialmente Responsável, que visa fornecer orientações para a redução de acidentes nas rodovias. Diversas dicas e sugestões são dadas nesse programa. Acessem o site:
www.institutocuidandodofuturo.org.br

EV: Que mensagem o senhor dei­xa para os leitores da Entre-Vias?
DC:
A redução de acidentes no Trans­porte Rodoviário de Cargas é um pro­blema de âmbito nacional. Mais de 8.000 vidas são ceifadas anualmente, o que equivale a queda de um avião de passageiros a cada cinco dias. Portanto, toda a sociedade precisa se mobilizar para a solução desse grave problema. Pelo que vimos em nossa conversa, os principais vilões dos acidentes com maiores danos são a fadiga aliada a ve­locidade incompatível com as curvas.
A conscientização por parte não apenas das indústrias, mas igualmen­te dos clientes atacadistas e varejistas quanto à necessidade da empresa de transporte e consequentemente do motorista serem remunerados de forma a incentivar a direção segura, cumprindo um Plano de Viagem que leve em conta paradas para descanso adequado, é um passo essencial.
Além disso, é preciso garantir que o motorista, especialmente o autôno­mo, não seja obrigado a dirigir longas horas para compensar as perdas fi­nanceiras provocadas pelo pagamen­to por intermédio da “carta-frete”.



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